terça-feira, 23 de setembro de 2008

MÃE INVOLUNTÁRIA.


Eu - sempre gostei muito de criança e achei que seria natural ter filhos. Perdi um bebê em março de 2003. Lembro que fiquei muito triste, mesmo não tendo planejado aquela gravidez. Achei que um filho acabaria acontecendo num momento ou outro da minha vida, mas hoje percebo, não sem certa tristeza que, muito provavelmente, isso não vai acontecer! E não é uma decisão, muito menos minha. É algo do destino e da natureza.
Meu pai - ele é o melhor pai que eu poderia ter. Nunca me decepcionou e sempre me apoiou. Lembro de quando fiquei grávida...mesmo já dona do meu nariz e independente, por não ser casada, achei que ele iria ter um "troço" quando soubesse. Mas e não é que o "véio Saul" me surpreendeu totalmente? Olhou para mim e disse: "eu sou seu pai. Você pode contar comigo. Se quiser morar em casa, com meu neto, eu vou cuidar dos dois e não faltará nada para vocês". E eu fiquei ali, olhando para ele: estupefada com sua reação e suas palavras de apoio.
Passado - era fevereiro de 2003 e, naquele momento, era, também, tudo que eu precisava ouvir! Infelizmente não dei a ele a alegria de ter um neto, já que, em março, duas semanas depois de dar a notícia, eu perdi o meu bebê...
Presente - setembro de 2008: hoje percebo que me tornei uma mãe involuntária. Sem preparação, me vi mãe do meu pai e esse não era, exatamente, o tipo de "maternidade" que eu esperava para mim. Imagino que quando se é "mãe dos filhos", cuida-se deles na certeza de vê-los crescer e evoluir. Mas, e quando somos "mãe dos nossos pais"? E quando não temos certeza de evolução? E quando esse cuidado nos exige a preparação para o adeus? Será que é possível tornar essa caminhada de cuidados, preocupação, sustos, vigília e sobressaltos menos dolorosa? O que fazer? Falar? Gritar? Chorar? Quando? Onde? Com quem? Encher a cabeça dos amigos? Chorar as pitangas na análise? Procurar o serviço de psicologia do hospital? Escrever no blog? :)
Apesar de sempre ouvirmos que chega um momento da vida em que as posições de cuidar e proteger se invertem, nunca estamos, de fato, preparados para isso. Muito do que estou fazendo, dos meus erros e dos meus acertos, do estresse que vivo (muitas vezes de forma "quase" solitária) foi aprendido no dia-a-dia, no ensaio de cada movimento e por falta de uma orientação específica. Aos poucos tenho descoberto muitas coisas: cursos, literatura especializada, blogs, sites na internet, enfim, uma série de recursos que têm me permitido, ao menos, "tentar" entender um pouco esse momento, essa situação - e até a lidar com ela - não apenas em relação às informação sobre procedimentos, mas (e principalmente, talvez!) em relação ao apoio emocional e à troca de experiências.
O meu balanço? Nessa inversão de papéis eu acredito que estou me saindo melhor como "filha-mãe" do que como "filha-filha". Talvez as coisas não aconteçam por acaso!
FOTO: Meu aniversário, em agosto de 2007.