Descobri que sofro desse mal, a inveja. E é uma coisa generalizada, não é canalizada para algo ou alguém especificamente, mais ou menos assim:
Tenho inveja de quem tem um programa de rádio bacana, de quem leu Dostoiévski, de quem sabe fazer conta de cabeça, de quem canta bem, tenho muita inveja ainda de quem tem mãe viva, de quem tem filhos, de escritores talentosos, de quem come quilos de chocolate e não engorda, mas ultimamente tem uma inveja que está me matando:
A inveja das pessoas que se permitem sofrer por amor!
Pode parecer estranho, mas acho tão bonito isso de se esvair em lágrimas por alguém. Acho mesmo! De verdade! Lembrando Descartes, deveria existir uma máxima para algumas mulheres: "'Sofro', logo existo!"
Invejo as pessoas que sofrem no estilo melodrama mexicano, choram até o coração ficar apertado e pensam que o mundo não tem mais sentido sem aquele "moço" fazendo parte dele!
Mas não gosto do estilo "sofrimento eterno". Isso não, de jeito nenhum! Mas alguns dias ou semanas de dor do peito, isso deve fazer bem para a alma. Isso é bonito! Um pouco de tristeza antes de "levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima!"
Acho que falta isso na minha vida, não costumo me permitir viver o luto do final das minhas relações. Nos últimos anos o meu comportamento mais se assemelha à "filosofia" puríssima cantada(?) pelo Bonde do Maluco (?!?): "...não vale mais chorar por ele..."
Não que eu não chore, eu choro...choro muito! Só não choro pelos meus amores. Choro lendo Luna Clara e Apollo XI, choro assistindo Cinema Paradiso pela 15a. vez, choro vendo as fotos da minha mãe...ah! E quando quero fazer a "terapia do choro compulsivo", basta colocar um cd do Chico Buarque que começo a chorar copiosamente. Por exemplo, ouvir "Trocando em Miúdos" ou "Eu Te Amo" é choro garantido:
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"Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim / Não me valeu / Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim! / O resto é seu / Trocando em miúdos, pode guardar / As sobras de tudo que chamam lar / As sombras de tudo que fomos nós / As marcas de amor nos nossos lençóis / As nossas melhores lembranças / Aquela esperança de tudo se ajeitar / Pode esquecer / Aquela aliança, você pode empenhar / Ou derreter / Mas devo dizer que não vou lhe dar / O enorme prazer de me ver chorar / Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago / Meu peito tão dilacerado / Aliás / Aceite uma ajuda do seu futuro amor / Pro aluguel / Devolva o Neruda que você me tomou / E nunca leu / Eu bato o portão sem fazer alarde / Eu levo a carteira de identidade / Uma saideira, muita saudade / E a leve impressão de que já vou tarde."
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Ah, se já perdemos a noção da hora / Se juntos já jogamos tudo fora / Me conta agora como hei de partir / Ah, se ao te conhecer / Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios / Rompi com o mundo, queimei meus navios / Me diz pra onde é que ainda posso ir / Se nós nas travessuras das noites eternas / Já confundimos tanto as nossas pernas / Diz com que pernas eu devo seguir / Se entornaste a nossa sorte pelo chão / Se na bagunça do teu coração / Meu sangue errou de veia e se perdeu / Como, se na desordem do armário embutido / Meu paletó enlaça o teu vestido / E o meu sapato ainda pisa no teu / Como, se nos amamos feito dois pagãos / Teus seios ainda estão nas minhas mãos / Me explica com que cara eu vou sair / Não, acho que estás te fazendo de tonta /Te dei meus olhos pra tomares conta / Agora conta como hei de partir.
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Adoro chorar a estória de amor alheia, já que as minhas eu parei de chorar muitos anos atrás, mais precisamente no Farol da Barra. Pena que não existia iPod naquela época, já pensou que tiro certeiro esse trio: coração despedaçado, visual lindo e Chico Buarque ao fundo??? Renderia pelo menos umas 4 horas de choro ininterrupto! Mas eu devo ter ficado por lá uns 50 minutos. Chorando e fungando, chorando e perguntando porquê, chorando e perguntando o que eu tinha feito de errado...mas por fim sequei as lágrimas, tranquei meu coração e vou seguindo assim...às vezes me deixando arrebatar, mas com os dois pés sempre bem fincados no chão e sem arroubos de melodramas mexicanos.
Não que não tenha chorado outras perdas amorosas e queridas, chorei sim! Algumas mais, algumas menos, mas sempre sendo racional, um choro contido, mais cerebral! Sem realmente deixar o coração comandar o espetáculo.
E é disso que tenho inveja hoje, dessa intensidade toda! E devo confessar que, felizmente, isso espanta um pouco o meu cinismo e me dá uma certa esperança de que um dia, algum dia, eu me deixe levar nas asas de uma paixão louca e arrebatadora novamente! Não necessariamente para sofrer ao final dela, mas, principalmente, para ter aquela sensação de andar de montanha russa de novo!
:)





