Eu - sempre gostei muito de criança e achei que seria natural ter filhos. Perdi um bebê em março de 2003. Lembro que fiquei muito triste, mesmo não tendo planejado aquela gravidez. Achei que um filho acabaria acontecendo num momento ou outro da minha vida, mas hoje percebo, não sem certa tristeza que, muito provavelmente, isso não vai acontecer! E não é uma decisão, muito menos minha. É algo do destino e da natureza.
Meu pai - ele é o melhor pai que eu poderia ter. Nunca me decepcionou e sempre me apoiou. Lembro de quando fiquei grávida...mesmo já dona do meu nariz e independente, por não ser casada, achei que ele iria ter um "troço" quando soubesse. Mas e não é que o "véio Saul" me surpreendeu totalmente? Olhou para mim e disse: "eu sou seu pai. Você pode contar comigo. Se quiser morar em casa, com meu neto, eu vou cuidar dos dois e não faltará nada para vocês". E eu fiquei ali, olhando para ele: estupefada com sua reação e suas palavras de apoio.
Passado - era fevereiro de 2003 e, naquele momento, era, também, tudo que eu precisava ouvir! Infelizmente não dei a ele a alegria de ter um neto, já que, em março, duas semanas depois de dar a notícia, eu perdi o meu bebê...
Presente - setembro de 2008: hoje percebo que me tornei uma mãe involuntária. Sem preparação, me vi mãe do meu pai e esse não era, exatamente, o tipo de "maternidade" que eu esperava para mim. Imagino que quando se é "mãe dos filhos", cuida-se deles na certeza de vê-los crescer e evoluir. Mas, e quando somos "mãe dos nossos pais"? E quando não temos certeza de evolução? E quando esse cuidado nos exige a preparação para o adeus? Será que é possível tornar essa caminhada de cuidados, preocupação, sustos, vigília e sobressaltos menos dolorosa? O que fazer? Falar? Gritar? Chorar? Quando? Onde? Com quem? Encher a cabeça dos amigos? Chorar as pitangas na análise? Procurar o serviço de psicologia do hospital? Escrever no blog? :)
Apesar de sempre ouvirmos que chega um momento da vida em que as posições de cuidar e proteger se invertem, nunca estamos, de fato, preparados para isso. Muito do que estou fazendo, dos meus erros e dos meus acertos, do estresse que vivo (muitas vezes de forma "quase" solitária) foi aprendido no dia-a-dia, no ensaio de cada movimento e por falta de uma orientação específica. Aos poucos tenho descoberto muitas coisas: cursos, literatura especializada, blogs, sites na internet, enfim, uma série de recursos que têm me permitido, ao menos, "tentar" entender um pouco esse momento, essa situação - e até a lidar com ela - não apenas em relação às informação sobre procedimentos, mas (e principalmente, talvez!) em relação ao apoio emocional e à troca de experiências.
O meu balanço? Nessa inversão de papéis eu acredito que estou me saindo melhor como "filha-mãe" do que como "filha-filha". Talvez as coisas não aconteçam por acaso!
FOTO: Meu aniversário, em agosto de 2007.



2 comentários:
QUERIDÍSSIMA (que sinto muita falta) CRIS,
Acho difícil julgarmos quão bom nós fomos quando filhos-filhos. Que são filhos bons?! Os que não dão trabalho? Os que estudam e sempre passam de ano?! Os que saem de casa cedo pra seguir suas vidas?!
Não tenho filhos (e não é por falta de vontade), mas tenho meus sobrinhos... De Laís (com já 21 anos) ao Quiquito (com um ano de idade), todos me inspiraram de alguma forma em idéias, em decisões... Todos me ensinaram coisas que certamente minha “mãe-filha” não me ensina mais. Mas ela também me ensina muito!
Se você foi, quando criança, metade do que é hoje (em se tratando de ser gaiata, extrovertida), certamente seus pais tiveram momentos impares com essa filha-filha! Imagine quantas vezes você não deve ter arrancado um sorriso de seu pai ou mãe, de forma inocente, num momento que pra eles não estava sendo fácil...
É certo que para nós, agora, ser um ótimo filho-pai (ou filha-mãe, no seu caso) é fundamental. Essa coisa incondicional do amor PAI/FILHO não dá nem pra explicar, mas ela realmente É!
A preparação para o ADEUS não é algo fácil. É algo que postergamos por não querer nem imaginar a situação.
Mas acho que devemos ter nossos amigos bem perto de nós... SEMPRE! Amigos de verdade (seja o cônjuge, seja um amigo vizinho, seja um amigo que foi colega no colégio, trabalho). Conversar com eles sobre nossas apreensões, nossos medos (e nossas vontades, desejos e glórias também).
Não é algo fácil... Eu mesmo não consigo ser transparente, e acabo guardando muito pra mim...
Escrever às vezes parece mais fácil! Nem que seja simplesmente escrever (sem publicar). Ajuda a organizar as idéias, a pensar sobre a situação, a refletir.
Bem, esse comentário ta mais pra um POST que pra um comentário! Só queria mesmo que você soubesse que mesmo longe, o distante amigo procura sempre ler e, assim, ficar mais perto!
Beijo grande pra você!
Johnny
Oi Johnny,
ADOREI seu post. Muito obrigada querido! Por lembrar de mim e ler meu blog. Tenho aproveitado para colocar algumas coisas para fora ali mesmo, assim quem não está muito perto pode saber o que anda acontecendo comigo. E as coisas por aqui não andam fáceis para mim não. Meu pai tá bem malzinho da cabeça, a parte respiratória agora está estável (ele ficou quatro dias na UTI e "quase" teve que ser intubado - é com I mesmo! - mas agora já está no quarto, na sexta-feira ele teve uma piora e quase teve que voltar para a UTI, mas felizmente melhorou e a situação está controlada), porém o surto psicótico ainda não passou. Os médicos dizem que é "comum" pacientes idosos surtarem depois de um período na UTI. Agora ele está bem dopadinho porque os remédios são muito fortes, mas continua achando que todos os médcos são assassinos, criminosos, e torturadores que só querem matá-lo. è meu amigo, seria cômico, se não fosse tão trágico! Confesso que às vezes tenho que segurar o riso com as tiradas psicóticas dele, mas, na maioria das vezes tenho que segurar mesmo as minhas lágrimas e muitas vezes não consigo. Tá PH%$¨#&#*$((%&%¨!!!!!! Mas é bom saber que tenho amigos, que mesmo de longe mandam essas mensagens e fazem meu dia ficar bem melhor.
Espero que você esteja aproveitando muiiitoooo a temporada em Barcelona.
Mil beijos,
Cris
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