segunda-feira, 29 de setembro de 2008

BICHO-PAPÃO.



Bicho-Papão I - Meu pai é portador de DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica), em estágio bastante avançado. Ele fumou durante quase 50 anos e largou o vício há quase uma década, mais precisamente dois anos depois de ter sido diagnosticado com Enfisema Pulmonar.
Até o início desse ano convivi com a doença dele de forma relativamente tranqüila, com sobressaltos e preocupações normais durante suas crises e internamentos. Porém, desde a sua última internação, em maio desse ano, seu estado de saúde tornou-se extremamente frágil. Se antes ele ficava em casa por conta da depressão e falta de ânimo para sair, desde seu retorno do hospital, em junho, isso deixou de ser apenas uma opção, visto que ele parou de andar sozinho, só conseguindo levantar da cama com o auxílio de outra pessoa. Não lentamente, logo passou a fazer as refeições na cama. Ele também já está apresentando dificuldade para engolir e passou a engasgar até mesmo com um copo d´água. Esse é o quadro dele, devido ao problema respiratório.
Bicho papão II - Não bastasse o problema respiratório - e todas as debilidades advindas com ele - em outubro de 2006 meu pai foi diagnósticado com câncer de bexiga de baixa malignidade e em estágio inicial. Para quem achava o câncer um bicho papão, esse foi o menor dos males. Em maio desse ano, após duas cirurgias, para retirada dos tumores, e dois ciclos de aplicações de BCG depois, com concordância médica, desistimos de tratá-lo dessa enfermidade e dispensá-lo da cistoscopia, que é um exame extramamente doloroso e invasivo. Com isso deixamos o temível câncer de lado, já que é muito pouco provável que ele avance nos próximos dois anos, apesar da sua sombra existir.
Em meados de agosto desse ano, meu pai começou a apresentar um tipo de confusão mental, visto que pedia para almoçar na hora do jantar, queria tomar café da manhã à meia-noite, dizia que ainda não tinha comido nada, isso às cinco horas da tarde, após duas refeições, ou esquecia que já tinha tomado algum remédio, insistindo para que déssemos outra dose novamente. Imaginei que isso fosse pela idade ou pelo fato dele dormir muito durante o dia e insistir em ficar com o quarto sempre na penumbra.
Ledo engado.
Há cerca de dez dias ele sentiu um grande desconforto respiratório e tive que trazê-lo, às pressas, para a emergência do Hospital Português (de onde escrevo nesse exato momento, mais precisamente do quarto 235).
Depois de ficar umas quatro horas em observação ele foi levado para a Unidade de Terapia Intensiva, com início de falência respiratória. Com muita má-vontade, tive que deixá-lo sozinho, pois os familiares não podem acompanhar os pacientes na UTI (o horário de visita é restrito: apenas das onze às doze horas da manhã e das quatro às cinco horas da tarde).
Na manhã seguinte, ao visitá-lo, percebi que ele estava um pouco melhor e falando normalmente. O mesmo aconteceu na visita da tarde. Imaginei, inclusive, que ele seria encaminhado para o quarto naquele mesmo dia. Porém, no início da noite, ele teve uma descompensação respiratória e os médicos o submeteram a uma ventilação não-invasiva (VNI): "...essa prática tem sido considerada uma alternativa atraente à ventilação mecânica convencional para pacientes com insuficiência respiratória aguda, já que a pressão do tubo endotraqueal pode alterar os mecanismos naturais de defesa, predispondo-os a infecções graves, tais como: pneumonia, sinusite e otite. Além disso, promove dor, desconforto, impede a alimentação por via oral, a fala, impõe a necessidade de sedação e é responsável por sérios transtornos psicológicos. Já a VNI (que é feita por meio de máscaras nasais ou faciais) diminui o trabalho muscular e melhora a troca gasosa, mantendo as barreiras de defesa natural, diminuido a necessidade de sedação, reduzindo o período de ventilação mecânica e permitindo também evitar a intubação orotraqueal e suas complicações".
O que eu não imaginava é que esse procedimento em meu pai - associado a estadia na UTI - seriam, inicialmente, responsáveis por sérios transtornos psicológicos...
Ao visitá-lo no seu segundo dia na UTI, notei ali um paciente completamente diferente do que estava acostumava a acompanhar no hospital ao longo desses últimos oito anos, meu pai, que antes era dócil, cooperativo e extremamente receptivo aos procedimentos hospitalares, estava agora paranóico, agressivo, agitado, recusando o tratamento e tentando retirar todas as sondas e até o catéter nasal do oxigênio, por esses motivos ele teve que ser imobilizado na cama e essa visão, por si só, fez meus olhos se encherem de lágrimas. Sem contar que ele parecia ter envelhecido uns dez anos num curto período de dias. Quando ele me viu a primeira coisa que me perguntou foi se eu estava de carro e se iria tirá-lo dali.
Eu não esperava ver um quadro daqueles e desabei. Tive que sair de perto dele porque comecei a chorar compulsivamente. Logo eu, que todos pensam que sou uma fortaleza, estava lá: frágil e abalada. Liguei para meu irmão e minha prima Patrícia para pedir ajuda "emocional"...
...e foi naquele dia que tudo começou: os delírios de perseguição, a fantasia constante com a morte dolorosa, a tortura e a formação de uma gangue no hospital, formada por médicos, enfermeiros e auxiliares, no sentido de matá-lo lentamente e com requintes de crueldade, como ele mesmo continua descrevendo até hoje: vão cortá-lo com uma faca e depois suturar o corpo inteiro dele.
Dra. Kátia, a geriatra que está acompanhando ele (e a quem meu pai chama de Kátia, a criminosa - e na cara dela!) me informou que é "comum", pacientes idosos e que ficam internados na UTI apresentarem surtos psicóticos temporários. Só que achávamos que assim que ele fosse para o quarto melhoraria da mania da perseguição. Mas seu quadro piorou. Ele passou a cuspir toda medicação oral, recusar alimentação e até mesmo água (dizendo que estavam envenenados), recusando-se também a fazer exames de sangue ou fisioterapia.
Foi introduzida uma medicação venosa, mas ele melhorou apenas da agitação e agressividade. Os delírios continuam.
Para afastar a possibilidade de um acidente vascular cerebral e, talvez, conseguir verificar o porquê dos medicamentos não estarem surtindo o efeito esperado, meu pai fez uma tomografia do crânio no último sábado, pela manhã. Hoje tive o resultado:
Dra. Kátia acabou de sair aqui do quarto. Ela conversou comigo e disse que meu pai está com Demência Fronto-Temporal.

E não é que agora eu me deparo com o BICHO -PAPÃO III? :(
"A Demência Fronto-Temporal (DFT) apresenta um quadro clínico de deterioração mental progressiva com afasia grave e distúrbios comportamentais associados à degeneração (atrofia) temporal esquerda ou fronto-temporal. Sua evolução é rápida, em geral, deteriora em um ano mas, por vezes, chegando a 5-10 anos. Esse tipo de demência é às vezes chamada de Complexo de Pick, é caracterizada por atrofia do cérebro nas regiões frontal e temporal".
E eis-me aqui, balzaquiana, calejada, praticamente uma "Tereza Batista, cansada de guerra", me descobrindo temerosa novamente e agora com um bicho papão completamente desconhecido e cruel...