No último sábado, dia 28/06/08, perdi uma pessoa muito querida. Não nos falávamos a algum tempo, aliás, nem o fazíamos com freqüencia, ela também não era minha amiga de infância, nem de longas datas e nunca havíamos nos encontrado até ano passado, mais precisamente abril de 2007, quando fomos passar alguns meses na África do Sul. Não crescemos juntas no sentido cronológico, mas crescemos muito juntas sim! Crescemos como pessoas! E em nossa jornada, lá em terras estrangeiras, tivemos que aprender a conviver sem parentes, amigos, locais conhecidos e rostos familiares.
Eu já sabia, através da agência de viagens, que uma baiana, chamada Andrea, iria viajar no mesmo dia que eu para Cape Town, mas só nos conhecemos no aeroporto de Joanesburgo, enquanto aguardávamos a conexão para Cape Town.
É incrível como esse tipo de experiência nos faz próximos em tão pouco tempo e acabamos nos apegando rapidamente e sendo melhores amigos, quase como uma família. Foram três meses que criaram laços fortes e profundos. E mesmo sem termos muito contato depois da nossa volta para o Brasil, uma ligação diferente sempre nos manteve unidas, pois fizemos parte de um momento muito especial da vida uma da outra.
Depois de uma semana em Cape Town mais duas pessoas queridíssimas e especias se uniram a nossa DUPLA DO BARULHO: Tati e Flávia! Não deu outra: ficamos amigas num piscar de olhos e nos tornamos o QUARTETO FANTÁSTICO, sim, era como nos intitulávamos, já que estávamos sempre juntas. Tinhamos outros queridos amigos também, que nos acompanharam em várias das nossas aventuras, tais como: Ed, Marcos, Juca, Cinthia, Carlos, Camila, entre outros.
Como toda convivência, nem sempre as coisas foram só alegria. Lembro do dia que eu e Andrea discutimos pela primeira vez. Foi no Pick´n´Pay (um supermercado) por causa da divisão de tarefas: eu queria que cada uma ficasse responsável por escolher algumas mercadorias (para ser mais rápido) e ela queria que fizessemos tudo juntas. Enfim, problema no gerenciamento da logística, que gerou um estresse enorme. Andrea saiu do supermercado e foi para uma livraria onde estavam outros amigos nossos, já eu continuei as compras com Flávia e Tati. Mas amizade é assim mesmo, nem sempre concordamos. Quando terminamos as compras, uns vinte minutos depois, lembro de ido até a livraria, abraçado ela e dito: nós não estamos com nossos melhores amigos aqui, nem com nossos parentes, então, vamos deixar de bobagem e fazer logo as pazes porque nossa família aqui somos NÓS. Pronto, ela se desarmou, nos abraçamos e a paz reinava novamente. Mas não foi nossa única discussão, tivemos várias, mas nunca deixamos de aparar nossas arestas e de estarmos sempre unidas.
Foram muitos momentos sensacionais: a primeira Ópera que assistimos (TOSCA), os cafés no Giovanni´s, os almoços no Ocean Basket, as "caminhadas" até Sea Point, as tardes no WaterFront, os DVD´s que assistíamos nas tardes de domingo, as piadas que fazíamos com tudo e com todos, a noite do feijão na casa de Walter, os lanches no News Café, as noites de segunda no Buena Vista, o Karaokê das terças no Dizzy (o que era eu e Andrea cantando Betty Davis Eyes????? A visão - e audição! - do inferno!!!) mas a gente lá estava ligando para isso??? Éramos figurinhas tão carimbadas no local que quando íamos cantar o DJ já anunciava: LADIES FROM BRAZIL! O que queriamos mesmo era diversão!
Bebemos muita stellinha artois, muita savanah, muita hunter´s, muito vinho, muita champagne...aliás, nós bebemos muito por lá!!!! :)
E os foras que demos dentro das VANS???(nosso tradicional meio de transporte), foram tantos!!! O mais clássico: falarmos em português sobre alguém que estava na van e descobrir que a tal pessoa era brasileira...ou angolana (fizemos muito isso! E mesmo assim não aprendíamos a ficar caladas!).
Demos muita risada com Malga, nossa colega P"U"RTUGUESA, COM CERTEZA!
Lembro da nossa ida ao planetário, oceanário, museus, Long Street...e a viagem para Stallenbosch???? Meu Deus, quatro mulheres com TPM dentro de um veículo, dirigido pela direita (lá é mão inglesa), gastamos meia hora só para encontrar a saída da cidade. E eu fui eleita, por Andrea, a leitora oficial do mapa durante a viagem, já que, segundo ela, eu era a melhor na tarefa, entre as tripulantes do veículo. Agora imaginem a cena: eu, que sou completamente desorientada, às vezes atrapalho até direita com esquerda, servindo de co-piloto? Pois isso aconteceu! Até hoje nao sei como conseguimos ir e voltar em apenas um dia. E para acharmos o restaurante MOYO??? I WANT TO EAT IN THE TREE!!! (essa frase era da "macaca" Flávia!). Saímos de uma vinícola e fomos para outra, do outro lado da cidade e depois de muito perguntarmos, descobrirmos que a vínicola que estávamos primeiro, era onde ficava o tal restaurante que queríamos conhecer. Demos muita risada de nós mesmas nesse dia!
Lembro de Andrea colocando os pobrezinhos dos pinguins para correr na praia de Simon´s Town - e tenho isso em video!!! Loucas, loucas, loucas, mas muito felizes.
Pequeniques, farofadas, muitos vinhos comprados no Ultra Liquors, pôr-do-sol no La Med. Nossos bordões:
- TAP WATER (Andrea era a rainha da água de torneira, é que lá bebe-se água de torneira porque é confiável e tratada e a água mineral é caríssima, então Andrea não tinha o menor pudor em pedir tap water nos restaurantes...isso é que é personalidade! );
- É O QUE TEM PRA HOJE! (nem sempre a gente podia escolher muito...então, como dizia Tati...é o que tem pra hoje, então vamos encarar e ser feliz!);
- VOCÊ TÁ DEAF MAS NÃO BLIND! (essa frase era de ED, nosso super companheiro...o quinto fantástico, sobre nossas idas ao cinema, ou seja, não consegue ouvir, então olhe!);
- BÃÃÃO É O QUE TEM (mesmo que o que tivesse fosse feijão frio com molho de tomate! argh!);
- ONLY IN ENGLISH, PLEASE (mas é claro que só tentávamos, o português sempre acabava imperando!).
E quando Andrea começou a trabalhar como garçonete da Bella Itália? Nunca esteve tão feliz e orgulhosa (a pizza não era das mais gostosas, aliás aqui no Brasil nós fazemos muiiiiito melhor!), mas era uma das melhores da cidade e além disso tínhamos que prestigiar nossa amiga.
E essas são apenas algumas das muitas recordações que tenho da minha amiga Andrea e das
nossas aventuras em Cape Town.
Foram tempos ótimos, que infelizmente não voltam mais.
São coisas pequenas, mas tão significativas, que só nós sabemos o sentido. Nesses últimos dias as lembranças da nossa pequena aventura no continente africano não param de rondar a minha mente, com vários momentos especiais espocando como flashes e me trazendo lágrimas aos olhos. De tristeza, pela perda de alguém que foi tão especial para mim num momento igualmente especial da minha vida; de saudade, de um tempo lindo que ficou para trás e também por não ter conseguido, de alguma forma, ajudar minha amiga a conduzir as coisas de uma forma diferente, que não tivesse culminado com esse desfecho tão trágico e doloroso para os que a cercavam.
Mas vou tentar não ficar triste por ela. Vou rezar muito e torcer para que, onde quer que ela esteja, esteja melhor do que aqui.
Ô minha amiga linda! Porque você fez isso com a gente, hein? Partiu tão cedo e deixou tanta saudade? Não consigo parar de pensar se poderia ter feito algo para te ajudar, mas acho que não, esse mundo devia estar muito difícil para você. Queria muito que as coisas tivessem sido diferentes, mas espero que agora você encontre a paz tanto estava procurando.
Vou lembrar de você com muito carinho e rezar sempre por você.
Já conversei com minha mãezinha, que também está aí no céu, para ela pegar na sua mão, viu?
Fique em paz.


