sexta-feira, 5 de setembro de 2008

QUEM CHAMAR EM CASO DE EMERGÊNCIA?


Sabe aquela pergunta “QUEM CHAMAR EM CASO DE EMERGÊNCIA” que preenchemos em agendas ou deixamos na carteira para qualquer eventualidade, no caso de não termos condições de informar o nome/telefone de alguém a ser contatado para nos ajudar?
Não sei se é comum de todos, mas acredito que normalmente as pessoas colocam ali o nome da mãe, do pai, do irmão/irmã, do marido/mulher/namorado/namorada, alguém tão especial que achamos que nos resgatará de qualquer problema, seja que dia for, seja em que momento for...
Por isso, quando passamos por uma situação difícil, violenta, agressiva e constrangedora, onde nos falta forças para, literalmente, levantar do chão, o nosso cérebro, automaticamente, nos remete a alguém que, naquele momento de desespero, temos a certeza que irá, não só nos ajudar a levantar, mas também saberá, melhor do que qualquer outra pessoa, lidar com a situação. Além disso, ainda nos confortará, emprestará seu ombro, seu colo e nos dará o apoio, o acalanto e o carinho tão necessários em situações que fogem a nossa compreensão e nas quais a única pergunta que nos fazemos é: “porque isso aconteceu comigo?”
Bem, essa é a nossa “pessoa especial de emergência” ou “pessoa 911”, aquela que acreditamos que estará sempre pronta para nos socorrer. É para essa “pessoa especial”, também, que temos vontade de contar tudo de bom que nos acontece, porque temos certeza que ela ficará feliz com cada conquista nossa. É aquela pessoa para quem temos vontade de ligar também quando passamos por uma situação engraçada, constrangedora ou ridícula, pois sabemos que ela será capaz de rir e compartilhar conosco esse tipo de situação.
Muitas vezes nossa pessoa de emergência é nossa mãe (ou nosso pai), mas quando não podemos contar com eles, recorremos a outras pessoas. E normalmente elegemos um namorado. Até aí tudo bem, só que a vida está em constante mudança, e assim como podemos não ter mais nossa rede de segurança básica, que são os nossos pais, temos que aprender que as algumas das pessoas de emergência que passam na nossa vida, por mais especiais que sejam, também se vão, mudam ou simplesmente podem não estar mais disponíveis para nos ajudar a qualquer momento.
Em situações normais é fácil pensar antes de ligar para alguém. Escolher com quem vamos dividir essa ou aquela novidade. Mas e nas situações atípicas? Ruins? Quando precisamos de ajuda? Aí é que está o grande problema! Não conseguimos ser racionais nessas situações... Agimos por impulso e buscamos, justamente, aquele alguém muito especial, que já foi muito bacana com a gente em momentos tão difíceis, foi um porto tão seguro, que isso ficou gravado em nossa mente. E, naquele momento de desespero, esquecemos completamente que ele tem outra vida, outros prazeres, que as coisas mudaram, que os anos passaram, que ele tem um outro alguém especial para cuidar, outros interesses... Isso é péssimo para quem queria pedir ajuda, porque é tão instintivo lembrar de alguém que cuidou bem da gente, que sequer passa na nossa cabeça que ele tenha outras prioridades. Mas é muito ruim também para o outro, pois sequer sabe, que no inconsciente de alguém, ele ainda é a primeira pessoa a quem se tem vontade de recorrer.
Enfim, como buscamos apoio na certeza de termos ajuda, se isso não acontece ficamos com uma sensação de desamparo gigantesca. O que, somado a fragilidade pelo trauma vivido, resulta num sentimento de abandono total. Justamente porque tínhamos certeza que essa pessoa estaria sempre lá para nos amparar...
Eu sei que isso tudo é muito injusto com a outra pessoa, mas quem disse que nossos pensamentos e sentimentos são sempre justos e corretos?
O engraçado é que podemos passar uma vida sem perceber o quanto demoramos a internalizar algumas mudanças ou só perceber isso depois de levar um tombo.
Mas como devemos tentar aprender algo com nossas experiências, descobri, não sem um pouco de dor, que quando um relacionamento acaba, não é só a relação física que termina, mas também nossos vínculos emocionais. E isso não quer dizer deixar de sentir carinho e ter amizade pelo outro, significa apenas que não devemos continuar dependendo emocionalmente do colo dessa pessoa, porque ele provavelmente já terá outro alguém especial para aconchegar.
E é apenas para facilitar esse entendimento, que se faz necessário um pouco de distância: para reaprendermos a viver, e a sofrer, sem contar com alguém que nunca mais poderemos ter.
Se não fizermos isso, corremos o risco de continuar confundindo as coisas e sofrendo por um sentimento que não existe mais.