quinta-feira, 8 de maio de 2008

TENTANDO AMENIZAR MINHA DOR, ESCREVI...

Saudade. Tempo. Perda. Dor. Rituais. Comportamento.
Dor.
Na última terça-feira, 06/05/08, seria o aniversário da minha mãe. O segundo aniversário dela sem estar presente conosco. Tudo tão rápido. Meu Deus! Às vezes eu queria que o ano de 2006 fosse abolido do meu calendário, como isso não é possível sigo em frente sorrindo e brincando, mas carregando comigo uma dor que não divido com ninguém, que mantenho trancada dentro de mim. É uma dor no peito que não cessa, nunca cessará e com a qual ainda estou tentando aprender a conviver. Percebi que preciso falar sobre a minha perda e foi por isso que resolvi escrever e compartilhar um pouquinho dessa minha dor.

Comportamento.
Na época da doença da minha mãe algumas pessoas estranharam meu comportamento. Até eu me surpreendi. Achei que iria desmoronar. Mas não aconteceu. É incrível a força que aparece e que nos sustenta nessas ocasiões. Acho que nunca temos a atitude correta, mas apenas aquela que julgamos mais acertada em determinado momento ou situação. Foi por isso que, naquele momento e naquela situação, eu optei por reprimir o choro e guardar a dor. Guardei muito bem escondida, para que ninguém visse como eu estava sofrendo. Principalmente minha mãe. Queria que ela me visse como sempre fui: forte e alegre! Se foi certo ou errado, não sei. Mas foi minha opção naquele momento, foi como agi.

Perda.
Quando perdi minha mãe, perdi minha fortaleza. Perdi a pessoa que mais me amava no mundo. Aquela pessoa que se eu sentisse um dorzinha qualquer se preocupava e me ligava várias vezes para saber se eu estava bem. Aquela que me ajudava, mesmo quando eu fazia minhas besteiras. Aquela que sempre queria me aconselhar para o meu bem, mas que eu nunca soube escutar de verdade (na minha arrogância eu não tinha muita paciência, achava que minhas verdades eram únicas). Hoje eu queria tanto que ela me desse um conselho, um abraço, que me desse colo. Tenho tantas coisas que queria contar para ela. Dividir meus problemas. Compartilhar minhas conquistas. Beber das suas sábias palavras, ou, simplesmente, ouvir a sua voz falando comigo de novo! Mas aquela mulher que me amava com todos os meus defeitos, com minha TPM terrível, com minha chatice crônica, meus arroubos de mau humor, meu gênio explosivo, minha intolerância, minha arrogância, meu individualismo, minha mania de ser a dona da verdade, enfim, aquela mulher que me amava, sobretudo, pelos meus defeitos, foi embora! E eu nunca mais poderei compartilhar meus momentos com ela, sejam eles bons ou ruins. Minha mãe, meu amor incondicional, não está mais aqui. Perdi meu porto seguro.

Tempo.
Lembro que no dia do velório muitas pessoas tentavam me confortar com a seguinte frase: “com o tempo tudo vai melhorar...” A intenção era a melhor, eu sei! Mas isso é um ledo engano. Descobri que essa máxima não se aplica à perda da minha mãe. Nunca se aplicará. O tempo pode até curar algumas dores, disso não duvido. Cura a dor do coração partido, das desilusões, das decepções, das mágoas, cura até algumas frustrações. Mas o tempo não cura a dor de perder a mãe, o pai, o filho ou o irmão. Ah, essas dores não tem cura!

Rituais.
Eu quero muito ter um ritual para homenagear minha mãe. Ainda não tenho. As cinzas dela foram levadas para Conceição do Coité, sua cidade natal, ou seja, eu não tenha nenhum lugar, mesmo que simbólico, para visitá-la. O único lugar no qual a visito constantemente é nas minhas memórias.
Pensei em mandar rezar uma missa na terça-feira, dia 06/05 na Igreja da Piedade (que ela freqüentava). Desisti. Não conseguiria entrar lá. Mas quero um ritual. Quero um momento de conexão com minhas dores, minha saudade, meus pensamentos. Preciso disso.
Segunda, 05/06, pensei: já que não mandei rezar a missa na Piedade vou ao Bonfim logo pela manhã (minha mãe adorava essa igreja). Achei apropriado e pensei: “poxa, esse pode ser o lugar para meu ritual simbólico”.
Manhã de terça-feira, 06/05 – dia do aniversário de minha mãe: tinha um ótimo motivo e tinha tempo disponível, mas eu não fui ao Bonfim!
Tarde de terça-feira, 06/05: estava na Pituba e pensei ‘vou à igreja Nossa Senhora da Luz rezar pelo aniversário da minha mãe’. Tinha o motivo, a oportunidade e tinha tempo. Mais uma vez eu não fui!
Simples assim. Sem desculpas. Não fui. O aniversário da minha mãe passou e eu não lhe rendi nenhum homenagem. Queria ter rezado pela minha mãe. Mas não o fiz. Só pensei muito nela... Como sempre o faço: com muita saudade!
Lembro que ano passado aconteceu a mesma coisa, o dia 06/05 caiu num domingo. Eu estava em Cape Town e tinha uma igreja bem pertinho da minha casa, dava para ir andando. Já na noite anterior me programei mentalmente para acordar cedo e assistir a missa das 8h. Realmente acordei cedo. Realmente saí de casa em direção à igrejinha antes das oito horas. Porém, no meio do caminho, desviei. Virei à direita e sentei no News Café. Decidi tomar café e não mais ir à igreja. Liguei para minhas amigas e acabamos tomando o café da manhã por lá. Depois fomos para outros lugares e acabei só retornando para casa muito tarde da noite. Não consegui rezar pela minha mãe no dia do seu aniversário. Queria tê-lo feito. Mas não o fiz!
Não que eu não reze ou faça orações para ela. Eu o faço. Mas não consigo fazê-lo nesses dias mais especiais: o aniversário dela (06/05), o dia das mães (segundo domingo de maio) e a data da sua morte (05/08). Tenho pensado muitas coisas, mas realmente não sei o que me trava! Fuga? Covardia? Medo de encarar as coisas tais como elas são? Medo de ser humana e chorar compulsivamente? Tenho conversado muito com minha psicóloga sobre isso. Espero poder encontrar a resposta.
Ainda quero um ritual.
O próximo domingo é dia das mães!

Saudade.
Já se passou um ano e nove meses desde que minha mãe se foi e a dor hoje é muito mais pungente do que no dia 05/08/06, quando ela faleceu. Aliás, é maior também do que a dor que senti no dia 31/03/06 quando soube que eu não teria mais nenhum natal ao lado dela, já que só lhe restava em torno de seis meses de vida. Ela viveu apenas quatro.
Isso foi muito cruel.
Percebi que aproveitei tão pouco minha mãe. Ela era tão fantástica, tão extraordinária. Poderia ter aprendido tanto com sua sabedoria, com sua bondade, com sua sensatez, com seu equilíbrio... Além disso, poderia ter aprendido também com seus dotes culinários, com seus múltiplos dotes artísticos. Mas aprendi muito pouco. Sempre achei que ela viveria muitos e muitos anos, até morrer bem velhinha e acreditava que ela estaria aqui para me ensinar todas essas coisas no momento certo. Mas descobri, tarde demais, que o momento certo é o hoje, o agora. Naquela época não sabia disso. Minha mãe tinha apenas 62 anos, eu achava que tínhamos muitos anos juntas. Como eu poderia imaginar que tudo mudaria tão rápido? Que em apenas quatro meses ela não estaria mais comigo? Que me restaria apenas recordações, uma enorme saudade e uma dor que nada consegue deter?
Como não sentir saudade da “Spilberg” da família? Da artista talentosa, que além de saber fazer coisas lindíssimas com as mãos, não perdia uma oportunidade de entreter a família com suas peças de teatro, musicais, estórias ou apenas brincadeiras divertidas. Ela tinha uma criatividade fenomenal! Sempre bolando algo diferente para abrilhantar os momentos familiares.
Mãe, é assim que eu sinto hoje, uma saudade cada vez maior, uma admiração que não se apaga e uma vontade enorme de pode olhar para você e dizer: Eu te amo! Você foi fantástica. A mulher mais especial do mundo e a mãe mais maravilhosa que eu poderia ter. Obrigada por tudo. Por ter sido tão dedicada, por ter me criado tão bem, por ter me ajudado em tantos momentos, por ter me aceitado com todos os meus defeitos (e eu sei que não são poucos!!!). E, principalmente, ter me amado tão intensamente.