
Meu pai é realmente uma figura raríssima! É o único ser humano, ao menos que eu conheço, que ADORA ficar internado em hospital. É sério! Enquanto a maioria dos pacientes fica IMpaciente para receber alta, meu pai prorroga a dita "alta" o quanto puder! Mesmo sabendo de todos os riscos de infecção hospitalar, entre outras coisas.
Sábado tomei um susto danado, já estou acostumada às crises respiratórias dele, mas nunca tinha visto meu pai como desta vez: ele não conseguia andar e nem falar!
A crise aconteceu por volta das 15 horas. Alessandra (minha fiel escudeira, que mora lá em casa há mais de vinte anos) me ligou informando que já havia chamado a VitalMed e que a médica queria falar comigo. Percebi que algo realmente não estava bem, ela então me informou que iriam removê-lo para um hospital, pois já haviam dado duas injeções de corticóide, feito duas nebulizações e nível de saturação do oxigênio continuava baixo (a propósito, meu pai fumou por mais de 50 anos, parou há aproximadamente 8 anos e sofre de DPOC - doença pulmonar obstrutiva crônica (em estado avançado) ou enfisema pulmonar!
Fui "voando" para casa e ainda tive tempo de seguir com ele na UTI móvel.
Ele chegou muito mal no hospital e pela primeira vez, em uns oito anos de conversas com médicos - por conta dos vários internamentos do meu pai e da minha mãe - eu não consegui falar com o plantonista (por causa do choro). Simplesmente não consegui segurar as lágrimas.
Acho que andei sufocando tanto minhas emoções que no sábado jorrou tudo.
Tive a impressão que meu pai não aguentaria aquela crise.
Ele ficou umas duas horas na emergência até que o médico informou que ele teria que ser encaminhado para a UTI, pois seu estado era bastante grave. Mais choro! Ao chegar na UTI outro médico nos informou que ele ficaria por lá, NO MÍNIMO, dois dias.
A essa altura eu já estava arrasada. O pior é que na UTI o paciente não pode ter companhia, só recebe visitas duas vezes por dia e com duração de uma hora cada uma (11h às 12h e 16h ás 17h). Meu pai ficou assustado e temeroso, ele gosta de QUARTO de hospital, mas não de UTI!
No dia seguinte, domingo, fui até o hospital visitá-lo no horário permitido: 11 horas.
Ao chegar na recepção da UTI, para pegar o meu crachá, fui informada que ele tinha recebido alta e que iria para o quarto ainda pela manhã.
Como assim?!?
O médico não havia dito que na melhor das hipóteses ele passaria dois dias na UTI?!?
Que reação imediata foi essa? !?!?
Pois bem, são coisas do "véio Saul". :)
Acho que se ele não tivesse fumado, tanto, teria uma saúde de ferro e viveria uns 120 anos! Acredito que ele se recuperou rapidinho para ser transferido para o local onde realmente gosta de ficar quando está no hospital: o quarto!
Entrei na UTI e, mesmo já sabendo da "alta", levei um susto com a diferença da pessoa que eu havia deixado na tarde anterior e a pessoa que eu encontrei naquela manhã. Meu pai era outro. Inclusive completamente diferente do que estamos acostumados a ver em casa (pelo menos nos últimos anos): sorumbático, deitado na cama o dia inteiro, com o quarto às escuras, mal abrindo os olhos e conversando pouquíssimo.
Apenas um parêntesis: meu pai era muito bem-humorado, conversador e brincalhão. Ele ficou meio deprê faz uns oito anos, quando descobriu que tinha enfisema. Depois ele parou de fumar, de beber e foi ficando cada vez mais triste. Com a morte da minha mãe, há um ano e nove meses, a situação piorou muito!
Ou seja, cheguei na UTI, menos de 24 horas depois de deixá-lo em um estado lastimável para encontrá-lo falante, piadista e alto-astral.
Isso sempre acontece quando ele está no hospital. Acho que ele se sente seguro cercado por médicos e enfermeiras.
O engraçado é que meu irmão foi conversar com o médico, pneumologista, e pedir uma ajuda para a crise de depressão que meu pai está passando e ele respondeu: "Depressão??? Como assim? Seu pai não apresenta quadro de depressão!"
Não é a primeira vez que isso acontece.
Há uns oito meses levei meu pai numa psiquiatra, já que ele andava muito desanimado, não saía de casa, nem da cama, não conversava...enfim: um morto-vivo! Quando ele chegou no consultório parece que baixou o "santo do caboclo conversador e sorridente". Ele não parava de falar, sorrir e interagir com a médica. Eu olhava espantada para meu pai, pois em casa ele age completamente diferente. Resultado, ela me disse: seu pai não tem quadro de depressão! Eu contei a ela como ele ficava em casa, mas ele disse para a médica que ia melhorar, seguir todas as orientações dela, inclusive aumentar a dose do anti-depressivo e voltar lá no mês seguinte.
Ele nem seguiu as instruções e nem voltou no mês seguinte. E eu não tinha como obrigá-lo. Quem conhece meu pai sabe como ele é: finge fazer o que todo mundo pede, mas na verdade só faz aquilo que ele realmente quer.
Detalhe: meu pai detesta psicólogos e psiquiatras. Esses ele não gosta de visitar. Acho que por isso o ""santo do caboclo conversador e sorridente" baixou tão rápido! :)
Preciso que os médicos façam o diagnóstico, in loco, lá em casa, porque descobri que meu pai é um artista, a Globo está perdendo um grande talento. :) Na frente dos médicos ele é outra pessoa. E nós, eu e meu irmão, passamos por malucos, exagerados e filhos desnaturados, para dizer o mínimo!
Estou nesse momento no quarto do hospital, pois vou dormir aqui essa noite. Agora ele já está dormindo, mas quando cheguei ele me contou as notícias do jornal, o que conversou com meu irmão, que veio visitá-lo mais cedo, como foi a tarde e sobre as visitas que recebeu.
Lá em casa eu puxo conversa, mas o asunto nunca rende tanto.
Enfim: ele está ÓTIMO - de astral pelo menos! Ele continua com a infecção respiratória, mas o quadro está controlado e o médico disse que, provavelmente, ele vai assisitir o jogo do Vitória, no domingo, em casa!
Não o vejo tão bem há meses: conversador, bem-humorado, animado e só posso atribuir isso ao efeito que o "SPA"TAL causa nele. Isso mesmo: SPAtal! Porque para ele isso aqui está mais para SPA do que para hospital!
Estou pensando até em perguntar se eles não alugam um "puxadinho" lá no quinto andar, com vista para mar, para meu pai morar aqui.
Para ele seria o paraíso!


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